Carreira gloriosa

Ilustração: Guilherme Neri Gonçalves | Escola Canarinho – Ed. Infantil ― 2004

Uma mulher chamada Anne foi renovar a sua carteira de morotorista. Pediram-lhe para informar qual era sua profissão. Ela hesitou, sem saber bem como se classificar. “O que a todas eu pergunto é se tem um trabalho”, insistiu o funcionário. “Claro que tenho um trabalho”, exclamou Anne, “sou mãe”. “Não consideramos “mãe” um trabalho”. Vou colocar “dona de casa”, disse o funcionário friamente.

Não voltei a lembrar-me desta história até o dia em que me encontrei em situação identica. A pessoa que me atendeu era obviamente uma funcionária de carreira, segura, eficiente, dona de um título sonante.

“Qual é a sua ocupação?” Peguntou. Não sei o que me fez dizer isto, as palavras simplesmente saltaram-me da boca: “Sou Doutora em Desenvolvimento Infantil e em Relações Humanas. A funcionária fez uma pausa, a caneta a apontar para o ar, e olhou-me como quem diz que não ouviu bem. Eu repetipausadamente, enfatizando as palavras mais significativas. Então reparei, maravilhada, como ela ia escrevendo com tinta preta, no questionário oficial.

“Posso perguntar” disse-me ela com novo interesse, “o que faz exatamente?”  Calmamente, sem qualquer traço de agitação na voz, ouvi-me responder: “Desenvolvo um trabalho a longo prazo (qualquer mãe faz isso), em laboratório e no campo experimental (normalmente eu teria dito dentro e fora de casa). Sou responsável por uma equipe (minha família) e já recebi quatro projetos (todas meninas). Trabalho em regime de dedicação exclusiva (alguma mulher discorda??), o grau de exigência é de, em média 14 horas de atividade por dia (para não dizer 24…)”.

Houve um crescente tom de respeito na voz da funcionária, que acabou de preencher o formulário, levantou-se, pessoalmente, me abriu a porta.

Quando cheguei a minha casa, com o título da minha carreira erguido, fui recebida pela minha equipe ― uma com 13 anos, outra com 7 e outra com 3. Do andar de cima, pude ouvir o novo experimento (um bebê de seis meses), testando uma nova tonalidade de voz.  Senti-me triunfante!

O ilustrador na formatura do Ensino Infantil ― com o irmão e os pais | 2004

Maternidade… que carreira gloriosa! Assim, as avós deviam ser chamadas de “Doutora Senior em Desenvolvimento Infantil e Relações Humanas”, as bisavós, de “Doutora Executiva Senior”, e as tias de “Doutora Assistente”.

Uma homenagem carinhosa a todas as mulheres, mães, esposas, amigas e companheiras doutoras na arte de fazer a vida melhor.

(Autor desconhecido)

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