Paixão segundo G.H.

 

paixão

 

“É difícil perder-se.

É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida.

Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo.

Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.

Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir.

Mas estou tão pouco preparada para entender.

Mas como faço agora?

Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada?

Oh, sei que entrei, sim.

Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada.

E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava?

Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir.

É difícil perder-se.

É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.

Até agora achar-me era já ter uma ideia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver.

A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?

Não. Sei que ainda não estou sentindo livremente, que de novo penso porque tenho por objetivo achar – e que por segurança chamarei de achar o momento em que encontrar um meio de saída.

Por que não tenho coragem de apenas achar um meio de entrada?

Oh, sei que entrei, sim.

Mas assustei-me porque não sei para onde dá essa entrada.

E nunca antes eu me havia deixado levar, a menos que soubesse para o quê.

Ontem, no entanto, perdi durante horas e horas a minha montagem humana.

Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.

Como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser? e no entanto não há outro caminho.

Como se explica que o meu maior medo seja exatamente o de ir vivendo o que for sendo? Como é que se explica que eu não tolere ver, só porque a vida não é o que eu pensava e sim outra como se antes eu tivesse sabido o que era! Por que é que ver é uma tal desorganização?

E uma desilusão. Mas desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída?

Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema.

No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido.

O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.

De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro.

O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo?

Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

In A paixão segundo GH (pag. 12 e 13)

 

 

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