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Você sabe o que vai fazer com o resto da sua vida?

 

– “Quem é você?”, a lagarta perguntou à Alice, que respondeu hesitante: “Eu… Eu… Eu não sei bem quem eu sou agora… Eu era outra pessoa, mas acho que mudei… Não sei bem quem eu sou agora… Estou diferente…”.
– “Você está diferente? Mas afinal, quem é você?”, a largarta insistiu.

 

Aventuras de Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll (1865)

 

Desde que aprendem a falar, as crianças são atormentadas com a pergunta “O que você quer ser quando crescer?”. Geralmente elas respondem com maior ou menor entusiasmo: bombeiro, piloto, inventor, jogador de vôlei, médico etc. Da adolescência à idade adulta a pergunta continua a ser feita, mas fica mais aberta: “Quais são seus planos de carreira?” ou simplesmente “O que você quer da vida?”. E as respostas são cada vez mais longas: “Ter meu próprio negócio”, “Casar e ter filhos”, “Ganhar muito dinheiro”, “Entrar na política” etc.

Na beira dos 50 ou dos 60 – ou já tendo ultrapassado essa linha e contemplando a próxima fase da nossas vidas – é natural que a mesma pergunta volte a nos atormentar. Os filhos estão criados e em muitos casos já saíram de casa, já casaram e têm vidas familiares e profissionais que os ocupam em tempo integral. Você já não é muito necessária em uma casa quase vazia e a vida sexual com o marido não tem grande interesse para nenhum dos dois (se você teve sorte, ficou o companheirismo e a amizade). A aposentadoria chegou ou está próxima. E você se pergunta “O que vou fazer com o resto da minha vida?”. E faz essa pergunta esperando ouvir uma resposta. Mas ninguém responde…

alice

Refletir como queremos viver o tempo que nos resta de vida — que por sermos uma geração saudável podem ser vinte, trinta ou mais — nos força à uma reflexão sobre quem nós somos agora (nesse momento), quem realmente queremos ser e o que desejamos fazer nos anos que se estendem à nossa frente. O percurso através desses anos pode tornar-se uma aventura, uma busca da autenticidade, um esforço para descobrirmos quem realmente somos debaixo dos “disfarces” que até agora usavámos: filha obediente, boa mãe, esposa fiel, responsável pela casa, pelo supermercado, pela comida, pelo bem-estar da família… Mas quem é realmente a mulher por trás das máscaras?

Celina, aos 63 anos estava divorciada e morando em um belo e confortável apartamento de quatro quartos em Copacabana com os três filhos: um no último ano de Medicina e dois já formados e trabalhando. Adicione as namoradas que vinham passar os finais de semana e os feriados, os almoços, cafés da manhã, supermercado, roupas de cama, toalhas molhadas, casa cheia de areia… Não preciso dizer mais, você já entendeu. Um domingo ela acordou às seis da manhã e foi caminhar no calçadão, coisa que não fazia há anos, pois ela sempre acordava cedo para preparar o café, planejar o almoço de domingo ou ir ao super. Mas naquele domingo, ela fez diferente. Caminhou, pensou na vida que vinha vivendo, comprou o jornal e foi direto para os classificados procurando um apartamento de quarto e sala. Quando se mudou, uma semana depois dessa caminhada, deixou em cima da mesa uma cartinha para os filhos: “Estou me mudando. Este apartamento onde moramos até agora está no meu nome, mas é de vocês. Cuidem bem dele. Estou levando somente a minha roupa, minhas coisas pessoais e os meus livros, não preciso de mais nada. Não me procurem. Eu entro em contato com vocês quando estiver pronta”. Ela me disse que quando entrou no quarto e sala alugado onde apenas havia uma cama e trancou a porta, entendeu perfeitamente o que sente um prisioneiro quando a porta da prisão se abre à sua frente depois de anos…
Silvia chegou aos 55 saudável mas deprimida por se sentir desnecessária. Os filhos que ela tanto cuidou já não precisavam mais dela. Começou a exagerar na bebida e para “castigar” o marido que não mostrava grande interesse sexual com frequência estourava o cartão de crédito dele. Ela contava isso para as amigas e se sentia vingada.

Assustada com idade e com as rugas, Carmem fez tantas plásticas que hoje está irreconhecível e deformada. Não parece mais jovem, mas sim, alguém que fez muitas plásticas. Faltou rejuvenecer sua vida e como um disse minha amiga Georgina, “Não é por aí”…

Claudia começou a correr aos 49 anos. Hoje com 59 não só participa de meias maratonas, mas fez um excelente grupo de amigos que correm e celebram as vitórias juntos. Às seis horas da manhã ela já está no Ibirapuera pronta para os desafios que vierem.
Marília, aos 70 anos, convenceu o companheiro a comprar uma lancha, aprendeu a navegar, tirou carteira de arrais amador e hoje os dois dormem na lancha e passam o verão entre Cabo Frio e Búzios.

Nara, sempre elogiada pelas boas fotografias que tirava, aos 51 anos iniciou uma carreira como fotógrafa. Fez cursos, comprou uma excelente câmera e hoje é reconhecida como fotógrafa, já tendo feito várias exposições.

Eu mesma, aos 66 anos, caminhei 250 quilômetros no deserto de Saara com a mulher com quem meu primeiro marido se casou pela segunda vez. Talvez quando mais jovens, nós não seríamos tão tolerantes e não pudéssemos ter nos tornado as grandes amigas que somos.

No decorrer das nossas vidas aceitamos muitos papéis e expectativas em relação ao nosso comportamento. Aceitamos sem discutir responsabilidades para as quais não estávamos preparadas. Quem disse que eu estava preparada para ter um filho aos 21 anos? Livres das correntes da fertilidade, maternidade, filhos, marido, cuidados com os pais, com a casa, comida, algumas mulheres agradecem e florescem; outras perdem o rumo e caem dentro do buraco onde caiu Alice quando visitava o País das

Maravilhas: não sabem em qual extremidade está a saída.

Como a Dra. Louann Brizendine explica no livro The Female Brain, o cerébro feminino é “formatado” para evitar conflitos. De maneira geral, a mulher “busca a conciliação, evita confrontos, a raiva e a agressividade da mesma maneira que o homem evita emoções”, ela conclui. Mas a medida que os anos passam e a a menopausa se acentua, nosso perfil hormonal se modifica: o nível de estrogênio cai e o componente testosterna, mais agressivo, torna-se mais influente, aumentando a energia e a possibilidade de decidir, de dizer e de fazer o que queremos.

Para cada uma de nós chegando aos 50, 60 ou 70 ou já tendo passado desta marca, o resto das nossas vidas já chegou, está à espreita, nos desafiando, esperando por nossas respostas. Como vamos viver cada dia, quais as relações novas que vamos estabelecer, o que mais queremos aprender, de que maneira vamos contribuir para o mundo que nos rodeia; tudo isso está sendo decidido na busca por autenticidade embutida nas perguntas “De que eu realmente gosto?”, “Quem sou eu quando estou só e ninguém está me olhando?”.

 

por Magda Raupp

 

 

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