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Todo amor que houver nessa vida

 

Para meu filho Guilherme tão, tão, tão e tão esperado, desejado, sonhado e planejado

 

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Desde que me descobri mãe todos os papéis ficaram em segundo plano.

Porque embora você esteja atingindo a maioridade (18 anos), você ainda é um menino, e eu ainda posso ser seu remédio, mas a vida vai lhe mostrar que não sou perfeita, que tenho falhas, desvios e manias, que não possuo varinha de condão nem respostas pra tudo, que a dipirona tem propriedades maiores que minha presença, que não sou digna de ser seu espelho porque meus erros serão fatalmente identificados por você no futuro para que não os repita com seus próprios filhos.

Mas não tem importância, hoje trato de aproveitar cada segundo ao seu lado, gravando na pele a sensação de seu corpo arredondado, sua risada farta e barulhenta, o toque de suas mãozinhas no meu cabelo que você insiste em arrumar com um rabo de cavalo, seu cheiro principalmente quando corre e fica com o cabelinho suado, sua respiração profunda quando adormece.

Essas são minhas relíquias, tesouros escondidos numa porção extensa do coração, consolo para os dias ruins e saudades futuras.

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Nunca mais fui a mesma depois que te conheci. Antes pulava em de paraquedas, hoje deduzo os riscos do carrinho de bate-bate.

Tinha as unhas feitas, ultrapassava os carros pela direita e ia ao shopping pensando só em mim. Achava que sabia o que Cazuza cantava nos versos ser teu pão, ser tua comida, todo amor que houver nessa vida… mas só depois de amamentá-lo pude entender acerca de amor incondicional e saber ser o sustento de alguém.

Ainda que a vida e o amadurecimento nos afaste, ainda que perceba que somos diferentes ou incompatíveis, que diga que exagerei na dose nisso ou aquilo, que não precisava ter sido tão severa ou tão melosa, ainda que me acuse por seus traumas, fantasmas e medos, mesmo assim serei grata à Deus pelo meu maior presente pois você despertou algo em mim que eu desconhecia.

Justamente quando eu achava que tinha controle sobre tudo, você veio para me dizer que não controlo nada. Quando eu acreditava que já tinha amado demais, você me faz sentir uma aprendiz em matéria de amor. Quando minha casa se tornou modelo de perfeição e assepsia você invadiu mudando tudo de lugar, sujando as paredes e estofados com seus dedinhos melados, restos de pipoca e confetes coloridos, agregando aos ambientes cadeirões, bolas, cercadinhos, bicicletas e skate. Quando achei que era capaz de racionalizar tudo, você me fez adquirir o sexto sentido, ser mais intuitiva e capaz de expressões como “coração de mãe sente…”

Não há motivo para se lembrar das birras, refluxo, cólicas, noites em claro, viroses dilacerantes. De todos os trabalhos, você tem sido o melhor “ofício” e pelo qual sou mais bem remunerada. Não tem preço a alegria estampada nos olhinhos que brilham quando chego em casa, o abraço forte que por vezes me tira o chão, as perguntas inteligentes e constrangedoras, os comentários engraçados, a forma pausada com que você começa a fazer suas primeiras leituras, as festinhas na escola em que seu olhar procura aflitivamente por minha presença e se alivia ao me encontrar.

Você trouxe alegria para nossa casa. Alegria no barulho, nos carrinhos espalhados pelo tapete, nos desenhos colados nas paredes e na geladeira, nos DVDs perdidos pela estante. Trouxe movimentação, inseguranças, busca de conhecimento, nos fez ler livros especializados: “Nossos filhos são espíritos”, “O que esperar quando você está esperando”, “Nana neném”, “limites sem traumas”, “quem ama educa”…e mais uma porção de títulos nos tornando quase especialistas no assunto. Mas sem cartilha ou manual descobrimos o ser único que você é, com suas próprias regras e necessidades.

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Olhar para você é descobrir que o que é bom para meu ego certamente não é bom pra você. Quantas vezes você me mostrou que não é preciso impressionar ninguém, que sua hora é só sua, que quando você aprende a amarrar os sapatos, andar de bicicleta sem rodinhas ou cantar afinado posso me orgulhar mas não preciso te exibir para satisfazer minhas necessidades de aprovação e egocentrismo.

Espero que na jornada da vida você venha beber da fonte onde tudo começou. Que encontre em mim seu vínculo com a infância e tudo o que ela representa, o refúgio onde poderá se mostrar imaturo, brincalhão ou muito resmungão independente da idade que tiver. Acima de tudo estarei atenta para que jamais perca a ligação com o menino que existiu aí dentro, o menino que brincava, corria, colecionava sonhos e adorava massagem nos pés com oleozinho!

 

por inspiração

 

 

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