O vômito

 

Dois homens sentados em uma mesa
sentados em uma mesa em uma sala
em uma sala branca.

Um homem veste preto.
oferece um copo empurrando com o dedo
O copo é cheio de interrogações
e o outro homem rejeita, cheio de negações.

Após com silêncio insistir
ele deixa o líquido fluir
garganta abaixo, direto.
Olhos se entreolham, tudo quieto.

silêncio após um arroto súbito
quietos, mas ele está afoito.
Náusea e abdominal contração,
Para a boca ele leva a mão.
os músculos da face contrai então
Tentando segurar o vômito.

OVÔMITOSAICOMFORÇAINCONTROLÁVELJORRANDOPARAFORA

pus, líquido, sujeira, escarro
pelo oral orifício tudo isso sai
ele olha para o chão admirado
ao ver dois pequenos bonecos
homem e mulher em noivado
que em casamento vemos
em cima do bolo parados.

Olha então para o anel
que em seu dedo anelar está
retira-o, olha-o
“felizes para sempre” escrito lá
com força, no chão atira-o
para longe vai o anel

novas contrações, enjôos
regurgitar frenético
primeiro se alivia
de uma Bíblia
de uma cruz seguido
então vem um Buda sentado
Orixás e deuses
no meio do nojento escarro.
O vômito então parece preso na garganta
o dedo fundo na goela colocando
faz sair tudo o que está entalado
livros e livros com a bile vão saindo
Marx, Nietzsche e Descartés
juntando-se, no chão, ao líquido amarelado
com cheiro de podre e fezes.

seu vômito ele olha e reflete
Corre dentro da sala
apanha uma máquina, na cabeça mete
raspa todo o seu cabelo

da ânsia sobe novamente o sentimento,
no céu da boca gosto nojento,
vômitos fecalóides
saem como jatos
junto com panos e tecidos,
anéis e brincos,
gargantilhas e adornos,
chapéus e gravatas.

Olhar perdido, reflexivo
para a parede, pensativo.
Súbito, a camiseta rasgando
com as duas mãos segurando
puxando-as para fora,
depois a calça e toda a roupa arrancando
Se percebe nu agora
sentindo o chão frio
com a sola do pé.

Ele já se sente cansado
estafado
respira profundamente
tenta recuperar
o ar
mas o vômito insensivelmente
com mais uma contração violenta
começa tudo novamente
desta vez mais forte e intensamente
dolorosamente
primeiro uma mão, depois outra
saindo de sua boca
que se expande como uma vagina parindo
até que dois braços caminho vão abrindo
de uma cabeça para fora
dor lancinante nessa hora
e cai no chão regurgitado
o que ele percebe ser, assustado
um homem… ele mesmo, ali deitado!

olhar desnorteado.
olha ele mesmo no chão
olha em volta, baqueado
olha para si com atenção
então percebe, com surpresa fenomenal
que ele está sobre um pedestal
coma a cabeça acena, fazendo ‘não’

do pedestal ele desce
vê o seu corpo então
olhar de surpresa que cresce
olha e passa a mão em seus pêlos
passa o dedo e a língua em seus dentes
de cócoras, defeca e urina no chão
se olha no espelho
vê o mesmo reflexo velho
mas mais mil outras pessoas ali tem
com a sua própria imagem misturadas
pessoas conhecidas e desconhecidas
de hoje e de ontem

caminha até o homem de preto
estende a mão em agradecimento
e o reconhece nesse momento
que aquele também era ele mesmo

Anda até a porta da sala
abre-a
lá fora um mundo cheio de sensações
como se fosse a primeira vez, sente-as
e vai…

 

 

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