Palavras e vínculos

 

margaridas

Guardei na estante de casa por 30 anos um livro de Virginia Wolf chamado um Teto Todo Seu que devo ter comprado por recomendação de algum professor do curso de Letras quando tinha 20 anos.

Por que só lhe dei olhos agora, aos 52? Foi mais ou menos por acaso; buscava entre meus livros alguma inspiração para escrever sobre relacionamentos, descobertas, enfrentamentos dos mistérios do universo feminino – pretensiosa, eu?! – e puxei o livrinho fino espremido entre dois romances – um era A Tulipa Negra, em francês, edição très luxuosa. Que não li. Ainda.

Acho que no fundo eu sabia que a Virginia tinha coisas importante para me dizer, mas só agora, bem depois… das horas, ondas, anos: em uma espécie de panorama histórico de mulheres autoras, Virginia sugere que a privacidade é uma conquista e um pré-requisito para que a mulher olhe para si própria, considere seus desejos, reflita sobre ela mesma e produza – literatura, no caso, ou qualquer que seja a realidade de que faça uso. Realidade de que faça uso.

A frase está torcida porque foi pega emprestada de um mestre de caratê e amigo de quem falarei mais oportunamente. “Destorcida” e falada como ele sempre fala: “realidade é o uso de si”.

Putz.

Quando olho no espelho, vejo uma mulher madura comum que deseja harmonia em família, saúde, paz, amigos e why not? Um certo dindim para dar um upgrade no desfrutar de alguns prazerosos momentos mundanos.

Mas o espelho insiste. Olho de novo; admito que a grafia do tempo não traduz um texto grandiloquente de conquistas ou fazeres exuberantes. Revelam, antes, uma prosinha mequetrefe, despretensiosa denunciada pelas manchinhas de sol em excesso desde a gordota infância – não nego meu fraco por sol, mar, vida ao ar livre e, sim, sempre fui moleca de rua – e bolsinhas sob os olhos que preferi manter a ter que abdicar de uma pedalada ma-ra-vi-lho-sa na Toscana. Tudo bem, vai. Não sou a Rainha Má da Branca de Neve, mas espelho-meu que é espelho-meu que se preze, não mente. Assim, verdade sendo (mal) dita, não mantive só as bolsinhas sob os olhos pelo pedal italiano; ficaram também um nariz de batata, duas pálpebras semi-despencabundas e lábios aos quais seria bem vindo um procedimento cujo nome e justificativa por parte cirurgião plástico, esqueci.

Não sou contra cirurgia plástica nem contra quem se submeta a ela, mas durante a minha consulta eu não me sentia eu de verdade; e duvido que me sentiria “mais eu” com um nariz menos embatatado e outros “reparozinhos”.

Eu me senti eu, por exemplo, quando meu marido – e melhor amigo que já tive – disse que não precisava optar entre viajar – e sozinha, porque seria casamento da filha de uma amiga em Milão e ele não poderia me acompanhar por causa do trabalho, mas cuidaria da casa e do filho durante minha ausência porque eu merecia – e me plastificar; devia, segundo ele, fazer as duas coisas, se fosse importante para mim (o que na época era monetariamente possível).

E eu me senti eu de verdade. Viver um relacionamento em que existem provas de amor e generosidade, anos, horas, ondas, bolsinhas sob os olhos, decepções e tantas cositas mais depois, permitem sentir isso.

Claro que no meio de uma paisagem toscana incrivelmente arrebatadora – onde, aliás, foi filmado o também arrebatador O Paciente Inglês, de cujos Juliete Binoche, Kristin S. Thomas e Ralph Fiennes sou fã – é fácil se sentir infladamente EU.

Mas.

Não é de um relacionamento amoroso pretensamente completo que desejo falar. Eu desejo apenas falar. Do quanto pedalar na Toscana é tão completo quanto correr na chuva para alcançar o ônibus em pleno caos de São Paulo e seguir vivendo o dia atribulado, ou colocar o feijão preto de molho para remover os anti-nutrientes e ofertar um prato mais saudável a quem se ama… Eu desejo apenas falar das pequenas migalhas do cotidiano que compõem o uso de mim, o meu pequeno e precioso real.

Ana Holanda, editora de Vida Simples ensina em seu curso de Escrita Afetiva que escrever é mais um recurso para se conversar consigo mesma e com o mundo, colocar ideias ao sabor dos olhos alheios para motivar discussões, outros textos, criar vínculos.

Quando me percebo maquinando ideias e experimento urgência para chegar em casa, ao canto todo meu para escrever, lembro de Virginia e me orgulho de entrar em sintonia com suas ideias.

A privacidade é uma conquista e um privilégio. Tão precioso quanto saborear um Brunello de Montalcino na Toscana, como matar a sede com água fresca em um copo Nadir Figueiredo.

 

por Cris Christiano

 

 

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